Solidão, que em não sendo desassossego, desassossega. Nossas almas clamam por companhia. É como o ser e não ser em nós. ” Tudo que sabemos é uma impressão nossa, e tudo que somos é uma impressão alheia…”. Por isso com um poema busquei definir esse livro de horas descuidadas, ” casual e meditado.” Onde diz o autor que subsiste nulo, talvez por nele fazer “férias das sensações.” E assim corre o poema:

Há um desassossego
Imensamente presente
no sossego
imanente de nossa
solidão
que para o mantermos
com nossa alma lusca
falseamos termos
isolamento que busca
outra
inquietação

Ou diz, por nele nada ter a dizer, e, nada tendo-se a dizer, diz-se muito, que é portanto como o mito.
Encontrando-se na Rua dos Douradores Aylton Escobar com Fernando Pessoa, o primeiro pôs música às palavras do segundo nominando a litania inominada naquilo que ela traduz e não naquilo que ela é em seu croché. “Croché das coisas…Intervalo… Nada…” No som de Ayltom a multiplicidade das coisas, no mutismo de Pessoa, sua unidade, e ademais unidade exclusiva: “Uma inteligência aguda para me destruir” por um ato diferencial ” o saber escrever”, se não seria o moço de fretes, a costureira, o guarda-livros.

Um desassossego
permanente
na alma, no corpo,
na mente…

Que postergo,
entremente,
por não ter solução.

Volta sempre,
constantemente,
por ser minha
vocação.

Sonho e fantasmagoria … Tanto me basta, ou me não basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida.” Posto sabermos que “Baste a quem basta o que lhe basta/ O bastante de lhe bastar!” e “… o fechar-se-me sempre a vida nesta Rua dos Douradores …Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições.” Todos queremos essa incondicionalidade, que, entretanto, é sujeita a tantas condições. “Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete.” Somos tão condicionais, e nossa única verdadeira realidade é a esperança, porque quebra a condicionalidade. A esperança é incondicional. “Ter o que me dê para comer e beber, e onde habitar…” e seguir em frente posto que “A vida é breve, e a alma é vasta…” Sempre o croché, “Sim, croché…”

Esvoaça a borboleta de beleza infinita, e uma vez poisada na cabeça determina nossa condição, ridícula condição de possuirmos o mundo, e afirmarmos: “Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para a Rua dos Douradores.”


Hélder Paraná do Coutto (Niterói, Rio de Janeiro, 1956). Biólogo, pesquisador, poeta, cronista, teatrólogo, escritor, historiador, colecionador, antiquário, jornalista, guerrilheiro, político, sociólogo, combatente.

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